Akita: Estilo Cada Vez Mais Oriental

Akita, símbolo nacional nipônico, há muito é admirado no mundo por suas qualidades. Saiba por que trabalha-se para deixá-lo mais oriental.

Entre os cães árticos – aqueles que vêm das regiões frias e têm pelagem densa, orelhas pequenas e cauda espessa enrolada ou caída sobre a garupa -, o Akita é o que mais se destacou no Brasil como guardião. Tem admiradores em toda a parte por seu temperamento alerta e reservado com estranhos, silencioso, discreto e agressivo quando necessário. É também companheiro sensível, inteligente e devotado a família.

Seus ancestrais de tipo “spitz” (de focinho afilado e aspecto físico que lembra a raposa) vieram da Coréia, Sibéria e China há mais de 2 mil anos. Desde lá, foram feitos cruzamentos, inclusive para adequá-lo às atividades exercidas conforme a época e a região, tornando-o o cão de maior porte do Japão. Foi caçador de javalis e ursos, guarda de grandes propriedades e lutador em rinhas com outros cães. Sabe-se que cruzou com molossos, a partir de 1900, para adquirir maior robustez e potência de mordedura. Seu temperamento foi moldado ao gosto do povo e da cultura japonesa. Tornou-se, assim, uma de suas tradições, muito querido, símbolo de boa-sorte, conhecido como o cão dos Samurais.

No início deste século, os japoneses interessaram-se em recuperar a pureza de suas raças caninas. Em 1931, encontraram exemplares satisfatórios deste cão de porte grande na região de Akita, vindo daí seu atual nome. Um ano após, o Akita foi elevado a “Monumento Nacional” e, em 1934, teve seu primeiro padrão oficial, com a fundação do Akita Ken Hozonkai (Associação de Preservação da raça Akita), passando a ser criado nos moldes da moderna cinofilia.

Durante a 2ª Guerra, o trabalho teve que ser interrompido. Muitos cães foram eliminados e, dos poucos Akitas que restaram, a maioria mesclou-se novamente, inclusive com Pastores Alemães usados pelos militares, apresentando características atípicas, como máscara negra, pelagem com grandes manchas, corpo comprido, orelha grande e em pé. Desde lá, trabalhou-se para retornar à antiga expressão da raça, acrescentar agilidade e elegância à sua robustez e eliminar as cores não típicas. O Japan Kennel Club alterou, há alguns anos, o padrão oficial, que foi repassado ao Brasil e demais países filiados à FCI-Federação Cinológica lnternacional, em 1991. Nele, a pelagem longa é falta grave desqualificante, a máscara negra falta simples e as marcações de pelagem sobre fundo branco são apenas toleradas, preferindo-se sua ausência.

Deste trabalho surgiu uma minoria de exemplares leves demais, com o focinho mais longo e afilado ou pelagem longa ou curta demais e menos densa. Corrigir isso é o atual desafio dos criadores criteriosos.

No mundo, quem mais criou Akitas no ano passado foram os Estados Unidos, com 11.574 exemplares registrados em 1993 (o Japão veio em seguida com cerca de 10.000 exemplares). Eles chegaram aos EUA após a guerra, levados inclusive por soldados que dela retomavam. Eram Akitas com características típicas daquela época, mantidas até hoje e reforçadas pelos americanos, a ponto de estarem muito diferentes dos japoneses.

O porte, descrito por ambos os padrões como grande e bem balanceado, é mais alto e robusto pelo AKC-American Kennel Club que determina altura de 71 cm e desqualifica se tiver menos de 64 cm, contra os 67 cm da FCI que permite 3 cm a mais ou a menos. Ainda, o AKC é mais rígido desqualificando tamanhos abaixo do padrão e considerando falta grave os magros ou com ossaturas leves. Este tipo de penalização não existe pela FCI.

Boa parte da criação americana tem máscara preta, apreciada por dar uma aparência intimidatória. Os malhados, em baixa no Japão, são os preferidos pelos americanos (grandes manchas uniformemente distribuídas sobre fundo branco, cobrindo a cabeça e mais de um terço do corpo, define o AKC). A maioria dos Akitas japoneses são vermelhos. Nos EUA são minoria.

Porém, se por um lado os americanos tem físico mais poderoso, por outro perdem em temperamento de guarda. “Não recomendo o Akita para a guarda”, diz Susan L. Duncan, vice-presidente do Akita Club of America. A criadora americana Linda Wilvaington do Daikoku Akitas Kennel de Columbia-KY, que cria ambos os tipos, compara: “o japonês é excelente guardião, percebe imediatamente uma tentativa de agressão e impede-a. O americano perdeu em parte a habilidade para o trabalho, ficou mais frouxo. Há os bons para a guarda, os agressivos demais e os excessivamente mansos. A linhagem japonesa aprende mais rápido, é mais ágil e apesar de sua estrutura menor e dos machos serem menos másculos, gosto da sua agilidade, da firmeza, da aparência e da cara mais amigável e sorridente. Considero que o tipo físico e o temperamento devem ser a prioridade do criador e que a questão das cores é secundária. Apesar da máscara preta e do malhado serem sinais de impureza, acho-as bonitas e nem são falta desqualificante”.

A maioria dos criadores está satisfeita com o padrão atual. “Na Itália, onde julguei há pouco, só existem Akitas japoneses e, na última exposição mundial de Berna, Suíça, prevalecia o tipo japonês sem máscara nem malhado. Eram bonitos e de bom porte”, relata Anita Soares, vice-presidente do Clube Paulista do Akita, juíza e criadora pelo Canil Antique’s Place de São Paulo-SP.

Há quem prefira o Akita criado há alguns anos. “Quando comecei com o Akita em 1983, escolhi a linhagem japonesa. Agora, acho que a altura e a robustez diminuíram. Vejo exemplares peludos e sei de outros barulhentos ou medrosos. Hoje, o Akita americano me parece mais adaptado ao que o padrão exige”, opina Gervásio Lourenço Jr. do White Feet Kennel, São Paulo-SP.

Assegurando não ter observado redução no porte na raça, Sebastião Alves de Souza, do Akihushi Ber Kennel, de Fortaleza-CE comenta que “o Akita deve ter porte respeitável. Para mim o americano é grande demais”. Beth Uebe e Luiz Antonio Castino, do Daphine Star Kennel de Belo Horizonte-MG, criadores da linhagem japonesa há anos confirmam que o Akita é silencioso e que seu instinto de guarda continua apurado. Tanto que Beth completa “no prédio em que moramos me chamam de “criadora dos cães mudos”. Takayoshi Ogata, criador há 7 anos pelo Aso Kohgen Kennel, de Salvador-BA, não tem observado alterações no temperamento da raça. “Acho necessário sangue novo no plantel nacional para melhorá-lo ainda mais. Mas o Akita continua um cão de um dono só, guarda eficiente e equilibrado, que adora as crianças”.

Resumindo, o presidente do Clube Paulista do Akita, Kishiro Maki, juiz e proprietário do Canil Shirakaba de São Paulo-SP, que vem trabalhando para divulgar a tipicidade da raça, explica que “pelo novo padrão, o Akita deve ser de porte grande, vigorosamente constituído, bem balanceado, com muita substância e robusto. A altura não mudou. Deve ser leal, dócil e receptivo, mas sempre alerta, mesmo que não o demonstre, e só deve latir em casos extremos. Não pode permitir que um estranho o toque sem autorização e atacará imediatamente um agressor. Pêlos longos são falta desqualificante. Os problemas citados anteriormente são minoria e os criadores estão atentos para superá-los”.


Ficha:

Compra do filhote: Aos 60 dias para melhor avaliação. Com constituição forte, olhos orientais, triangulares, escuros (nascem cinza, azul é proibido), mordedura em tesoura (incisivos superiores fecham por cima dos inferiores), não prognata (arcada inferior não projetando-se mais que a superior), pêlo compacto e espesso, não longo (prenuncia-se nos filhotes aparecendo dentro das orelhas), orelhas espessas (as orelhas levantam até os 6 meses), pernas paralelas, não desviadas nem para fora nem para dentro. O padrão pede sem máscara preta (algumas máscaras escuras desaparecem com a idade) nem malhado, nem todo preto. Filho de branco com branco dificilmente se torna um bom exemplar.

Cores: Vermelho, branco, tigrado e Goma (com pêlos no dorso e/ou laterais pretos na extremidade e vermelhos na base).

Ambiente: O Akita se adapta a ambientes internos desde que caminhe diariamente.

Reportagem: Flavia Soares. Edição de texto: Marcos Pennacchi. Agradecemos aos criadores pelas longas entrevistas e revisão do texto final.


Reportagem publicada na Revista Cães & Cia nº 183, de Agosto de 1994.