Akita: Um Jeito Único de Fazer a Guarda

O Akita é uma alternativa eficaz na guarda de qualquer tipo de ambiente. Desconfiado e muito tranqüilo, segundo os criadores ele pode até ser criado em pequenos espaços com sucesso.

Devido ao crescimento vertiginoso da violência, a presença de um cão de guarda é um alívio. Ainda mais se este cão for um Akita, uma raça que, além de limpa e asseada, é ainda discreta e silenciosa.

Provavelmente em virtude dessas características, ele é criado em grandes e pequenos espaços, comportando-se satisfatoriamente até mesmo em apartamentos, pois conquista a simpatia até dos vizinhos.

A raça costuma latir apenas quando pressente algo suspeito. Sua maneira silenciosa é oriunda da cultura nipônica. No Japão (país de origem da raça) antigo as casas eram feitas de madeira e finas folhas de papel de arroz. Assim, qualquer ruído era compartilhado pela vizinhança. Nesse sentido, era fundamental que os animais fizessem pouco barulho para não incomodar os vizinhos. Apreciadores dessa forma silenciosa, os japoneses selecionaram os cães menos barulhentos para aprimorar a raça. A criadora Maria Luiza da Silva Ferrari, do Mara’s Kennel (Barretos-SP), conta que teve uma cadela, Bruna, que nunca latiu durante os 8 anos em que viveu. Até os últimos minutos de sua vida, quando sentia fortes dores, Bruna permaneceu calada.

A criadora Maria Elizabeth Dutra Uebe, do Daphine Star Kennel (Belo Horizonte-MG), que cria três Akitas em seu apartamento, diz que seus cães não lhe dão trabalho nem incomodam as pessoas. Ela nunca recebeu uma reclamação. Os vizinhos gostam muito deles. Certa ocasião, um ladrão assaltou um dos apartamentos do prédio de Beth. A notícia se espalhou rapidamente. Curiosamente, antes de Beth saber o que acontecera, sua cadela Daphine já estava fazendo a guarda na porta do apartamento, de modo que não deixava ninguém entrar. Daphine pressentira algo errado no ar. Naquele dia, a cadela acabou ajudando a polícia a seguir a pista do invasor.

Outra herança da cultura oriental é o temperamento reservado. “O Akita dificilmente faz amizade com qualquer pessoa. Mas, depois que seu coração for conquistado, torna-se um amigo para sempre”, afirma Maria Luiza. A raça é muito desconfiada com estranhos. Um Akita só recebe bem uma pessoa se seu dono for cordial com ela. Normalmente, demora a se acostumar com desconhecidos. Assim, a aquisição de um exemplar adulto, geralmente, causa alguns problemas. Até o cão aceitar o novo dono, assumirá uma postura distante e fria, sem grandes demonstrações de afeto.

Essa reserva se mantém intacta até mesmo diante de situações em que o instinto prevaleceria. O criador Washington Jorge Parente de Oliveira, do Brasil Akita-Ken (São José dos Campos – SP), conta que, certa ocasião, levou seu cão, Butch, para passear no centro comercial da cidade. Lá uma moça ficou encantada com o cão e não tirou mais os olhos dele. O cão também a observava. Foi daí que ela resolveu dar um pedaço de carne do seu espetinho. E não é que Butch esnobou a oferta e continuou a encará-la! A moça ficou ofendida.

Como todo cão de guarda, o Akita não gosta de estranhos. Ele só os respeita quando estão na companhia de seus donos. Mesmo quando a pessoa lhe é apresentada, o Akita não se tornará seu amigo. A raça não aceita a presença de estranhos em seu território quando o dono está ausente.

Washington afirma que seus cães não gostam de afagos de estranhos, mesmo que sejam amigos seus. Quando isso ocorre, o Akita fecha os olhos em forma de fenda, abaixa as orelhas e o rabo e olha para o dono como se estivesse querendo dizer que não está gostando.

Já com as crianças, seu temperamento é mais brando. Mesmo assim não permite a presença delas em seu território na ausência das pessoas com quem convive e nem gosta que abusem da sua paciência. Solange Brandão Frota, do Canil do Vale Caledônia (Nova Friburgo-RJ) diz que, quando seus filhos estão com os amigos brincando com espadas de plástico, seus cães ficam alertas para se certificar de que não serão machucados. Quando uma criança dá uma espadada na cabeça de um dos filhos da criadora, os cães começam a rosnar. Querem dizer que já está na hora de acabar com a brincadeira.

Mesmo quando filhotes, estes cães são reservados com os desconhecidos. A raça muito cedo já demonstra suas habilidades na guarda. Maria Raquel Malevicz de Vasquez, do Glen Suilag Kennel (Piracicaba-SP), conta que deu um filhote de presente para sua prima, pois seu sítio fora assaltado muitas vezes. Um dia, o cãozinho começou a latir insistentemente. Quando a moça foi verificar, encontrou um rapaz tentando roubar o caminhão de seu pai. Logo que o indivíduo se deparou com o Akita (na época com 7 meses), começou a correr. O cão estava furioso e partira para o ataque.

Amigo do sossego, o Akita não gosta de ser perturbado nem de perturbar. Quando não quer conversa, dá um alerta com um rosnado baixinho. Muito equilibrado, não ataca pessoas ou animais a troco de nada. “Apesar de bravos, os Akitas são cães de boa natureza. Jamais atacam por trás ou sem avisar. Um dia meu Poodle estava amolando um de meus cães, que o advertiu prensando-o com o focinho no chão. Se não tivesse caráter talvez o mataria com apenas uma dentada”, conta Maria Raquel.

A extrema fidelidade aos donos aliada à inegável coragem faz com que a raça seja associada à figura do Samurai – guerreiro que servia a um só senhor e por este não hesitava em dar sua própria vida. Esse cão protege seu dono e seu território por amor. Quando há um estranho por perto, ele se coloca imediatamente de prontidão na guarda. Fica observando cada movimento da pessoa, não desviando a atenção por um segundo. Se pressente algo suspeito, dá um latido rouco e baixo, em sinal de advertência. É como se impusesse um limite, o qual não deve ser ultrapassado. Caso a pessoa desrespeite esse limite, ele começa a espumar pela boca, eriça os pêlos e se arma para o ataque.

Durante o trabalho de guarda, o Akita não dorme em serviço. Trabalha essencialmente com a audição e visão. É capaz de detectar a presença de um estranho a muitos metros de distância. Se alguém invade seu território, não sossega enquanto não avisar seu dono, fazendo-o de modo discreto. Graças a esta maneira quieta e eficaz na abordagem de estranhos, existem vários casos em que os assaltantes foram pegos desprevenidos por um Akita, pois não sabiam que havia um cão por perto.

Texto: Katia Maria de Francischi


Reportagem publicada na Revista Cães & Cia nº 161, de Outubro de 1992.