Genética e o Meio

Este é o primeiro de uma série de pequenos, mas importantíssimos artigos de Amalio Lasheras, desportista, adestrador e cinófilo renomado de origem espanhola, que descreve os caminhos da genética segundo seus estudos e intendimento. Boa leitura.

“A galinha é o sistema que utiliza o ovo para fazer outro ovo. (O gen é o que importa)”
Autor: Herbert Spencer

Introdução

Os conhecimentos sobre genética estão avançando de uma maneira tão vertiginosa nestes últimos anos, que dentro de muito pouco tempo é previsível que todos os conceitos e maneiras de criar que possuímos, se tornem obsoletos.

No momento, somente uma raça. o Eurasiano, surgiu  de um planejamento científico e  de um ambiente de pesquisa universitária, o resto são produtos do trabalho de aficionados ou profissionais, com amplos conhecimentos empíricos, porém quase sempre sem preparação científica.

Para criar cães de qualidade não é necessário ser biólogo e tão pouco veterinário. De fato, basta ter boa vontade e desejos de fazer bem as coisas. O que escrevo, na continuação, com exceção de alguns conceitos muito gerais, é aplicável a unicamente ao American Starffordshire Terrier.

A raça é um fator biológico muito claro no cão, muito ao contrário do que se passa com o homem, onde é um termo difuso. Os especialistas em genética, biologia e antropologia estão de acordo que é impossível definir o que é uma raça humana.

Linneo classificou quatro tipos de seres humanos; o marquês de Gobineau distinguiu três; Haeckel falava de doze; Blumenbach, de cinco; Montadon, de vinte; Deniker elevou a cifra a vinte e nove…, Os especialistas atuais em antropologia, genética ou biologia simplificaram o assunto, concluindo que é impossível definir cientificamente as raças humanas[1].

Com o cão ocorre o mesmo. O homem, por meio da seleção e forçando a endogamia conseguiu no cão os traços distintivos domine sobre os comuns, que ao fim e ao cabo é o que constitui a melhor definição de raça:

Predomínio dos traços distintivos sobre os comuns da espécie.

Um pouco de história.

Há aproximadamente 10.000 anos se produziu a revolução alimentar do Neolítico. O homem fez-se sedentário e [ inventa ] a agricultura como meio de sobrevivência. Simultaneamente domestica animais e se inicia no pastoreio.

Algumas populações plenamente adaptadas a um estilo de vida de caça e extrativismo. o abandonaram em favor da agricultura. A humanidade começa a transformar animais e plantas. Se empregam cruzamentos seletivos, isto é, utilizam animais e plantas escolhidos cuidadosamente e que reúnem as características buscadas e os cultivam e selecionam com o objetivo de conseguir uma descendência que corresponda a suas necessidades.

Convêm recordar que até épocas muito recentes a funcionalidade era o único fator que buscava o homem em todos seus animais e plantas domésticas. O cão já acompanhava o homem por milhares de anos antes de ser caçador-extrativista, e talvez tenha sido a observação de sua evolução e adaptação ao novo em torno a que abriu os olhos em direção as possibilidades de manipular outros seres vivos.

O cão é o animal doméstico mais antigo e o único que tem convivido conosco como companheiro por milhares de anos, e com ele temos compartilhado alimentos e inclusive moradia. É ele o único a que se pode aplicar o conceito <<domus>> em sentido literal.

Há espécies animais e vegetais que, pese haver sido utilizadas pelo homem durante séculos, resistem a sua domesticação por terem partes críticas em seus ciclos vitais que se encontram fora do controle humano.

Não é assim com o cão. Este tem uma amplíssima variação genética, além de uma grande capacidade de convivência. Em minha opinião, é mais importante e precede no tempo sua capacidade de ser dócil e de obedecer, que as inumeráveis variações físicas e funcionais que possuem as diferentes raças.

Não se deve menosprezar a inteligência de nossos antepassados. Sem ter conhecimentos teóricos, porem indubitavelmente com um grande sentido da observação e alguns fundamentos racionais baseados numa experiência de erros e êxitos, criaram diversas raças domésticas partindo de animais selvagens: cães, ovelhas, porcos…, foram selecionados dessa maneira. Não temos mais que contemplar os baixos-relevos dos palácios de Nínive, com seus molossos assírios, ou as pinturas funerárias e terracotas egípcias, com seus múltiplos cães, tão antigos, e tão parecidos às raças atuais.

Temos que descobrir ante sua sabedoria, e isso que ainda não sabiam nada sobre as teorias dos mecanismos genéticos. Na Mesopotâmia existem gravadas figuras que representam cabeças de gerações sucessivas de cavalos com as mudanças que a seleção havia estabelecido neles.

É fácil criar cães sem ter conhecimentos teóricos de genética. Se necessita somente o sentido comum, planejamento e desejos de fazê-lo bem.

O século XIX foi importante para sentar as bases das leis da herança.

Primeiro Charles Darwin, com suas teorias sobre a evolução das espécies por seleção natural. Mais tarde um modesto frei agustino, Mendel, aporta as duas primeiras leis sobre a herança. Misturando ervilhas e aplicando fórmulas matemáticas, estabeleceu os fundamentos da genética.

Uma praga que terminou com suas plantas e a nomeação para um posto de responsabilidade em seu convento terminaram com os experimentos. Não obstante lhe deu tempo para publicar um trabalho de pesquisa em 1865: [ Hibridação das plantas ].

Há 35 anos passados os cientistas de então não lhe deram a devida apreciação.

Descobriu que os organismos possuem fatores paternos e maternos. Desconhecia a existência dos cromossomas. Por conseguinte é fácil considerar que deduziu a existência do conceito de diploidía nos seres vivos.

As duas leis que Mendel enunciou:

Lei da segregação dos caracteres:

1. [ Da cruza de dois caracteres, um dominante e outro recessivo, se produzirá um hibridismo dos caracteres ].

[ Da cruza de dois “híbridos” se originará ]:
a) Uma quarta parte da linha dominante.
b) Duas quartas partes de <<híbridos>>.
c) Uma quarta parte da linha pura recessiva.

 

Artigo escrito por Amalio Lasheras – Renomado desportista – Adestrador e renomado cinófilo espanhol