Akita - O Cachorro Samurai
Silencioso, alerta e versátil, esse cão de guarda caiu no gosto dos brasileiros.
O akita não nasceu no japão por acaso. Tem na paciência e na discrição, reconhecidas virtudes orientais, suas maiores qualidades. Se um dobermann ou um pastor alemão, cães de guarda como ele, podem ser espalhafatosos na função de vigiar a casa, o akita é o oposto.
Vamos imaginar um estranho se aproximando do portão da residência. O akita não vai latir nem se mexer enquanto o estranho não fizer menção de entrar. "Mas basta encostar no portão para o cão sair de seu posto de vigilância, aproximando-se sorrateiramente, como um felino, rosnando em sinal de advertência, como se impusesse um limite que não deve ser ultrapassado", descreve Pedro Lang, eleito pela CBKC (Confederação Brasileira de Cinofilia) o melhor criador de akitas do Brasil em 1998.Se o desconhecido insistir, ele começa a espumar pela boca, eriça os pêlos e... Nhac! Pobre do estranho se for atacado. O akita tem uma mordedura potente. E, depois de abocanhar, não costuma largar a vítima.
Uma das clientes de Cléa Hara, criadora há onze anos pelo Hara's Kennel, é testemunha disso. "A cadela sempre foi tratada por sua dona como uma criança, até dorme com ela na cama. Um dia, as duas estavam no carro, paradas num cruzamento. A janela estava aberta e um ladrão puxou o relógio do braço dela. Mas foi só ele encostar na moça de forma hostil que a cadela não teve dúvidas, fincou os dentes no braço dele e não largou de jeito nenhum. Só com o comando da dona a cadela o largou, e o ladrão fugiu com o braço sangrando", relata.
Dentre as raças de guarda, o akita ocupa um lugar próprio. Não é tão encorpado quanto um rottweiler, mas é robusto o suficiente para impor respeito com sua presença. Não é tão dócil quanto um pastor alemão, mas costuma ser extremamente fiel ao dono e à sua família. Não é tão ativo quanto um dobermann, mas revela-se tão destemido frente ao perigo quanto ele. "O akita tem características especiais. Quem está acostumado a ele e adquire um outro cão estranha", garante Gervásio Lourenço Jr., proprietário do canil White Feet, que cria a raça há quinze anos. Gervásio tem dezoito animais em sua propriedade, na Serra da Cantareira, em São Paulo. E ali reina a tranqüilidade. "Quando digo que tenho um canil, muitos estranham a ausência de latidos. Ser silencioso é o ponto fundamental do akita", diz ele.
"Quando um de meus oito cães late é porque algo de errado está acontecendo", concorda Cléa. "Uma noite, um deles começou a latir aparentemente sem motivo e, como conhecemos a natureza da raça, fomos verificar. Era um ladrão tentando entrar na casa do vizinho, que o cachorro logo viu e deu o alarme", conta.
ORIGEM
O histórico da raça tem a ver com a trajetória de um aristocrata condenado ao exílio na província de Akita, no norte do Japão, que desenvolveu cães para a caça de animais perigosos, como o urso. De caçador, o akita transformou-se num cão de combate, a partir de cruzamentos com mastifes. Quando as lutas de cães foram proibidas no Japão, no início do século, criadores procuraram reconstituir seu padrão original.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a raça quase desapareceu. O governo japonês confiscou os akitas, que eram sacrificados e tinham a pele empregada na confecção de vestes militares. Nesse período, muitos criadores passaram então a cruzar seus cachorros com os pastores alemães utilizados pelo exército imperial. Com o fim da guerra, alguns desses animais foram levados para os Estados Unidos, e se tornaram bastante populares. Enquanto isso, no Japão, os criadores tratavam de tentar reconstituir o padrão original da raça.
As duas vertentes, a japonesa e a americana, deram origem a padrões diferenciados para o mesmo cão. E, em 1998, a FCI (Fédération Cynologique Internationale) determinou a criação de duas raças distintas. O padrão japonês manteve o nome Akita e o padrão americano foi rebatizado para Grande Cão japonês. Os cães do padrão americano são mais musculosos, podem apresentar máscara negra (um ponto desqualificante para o cachorro), as orelhas são maiores e menos inclinadas e o focinho não é tão afilado. "Uma característica que me agrada no akita é sua aparência primitiva. Nota-se que a raça não sofreu grande manipulação genética", diz Gervásio. De fato, o akita lembra muito um lobo, como todos os cães do grupo spitz.
TEMPERAMENTO
Se você já ouviu a história de que o akita é "cão de um dono só", esqueça. Trata-se de um mito, segundo Gervásio. "Ele costuma ser afetuoso com o dono e sua família", garante o criador. "O que ele não curte é um contato físico muito intenso, esse negócio de ficar passando a mão a toda hora." Com estranhos é reservado. "O akita dificilmente faz amizade com qualquer pessoa, mas, depois que seu coração foi conquistado, tornasse um amigo para sempre", relata Pedro Lang.
Com as crianças também se relaciona bem, "desde que não muito pequenas", observa Gervásio. Cléa também faz objeções quanto a crianças desconhecidas: "Afinal, apesar de ser criança, ainda é um desconhecido". Mas com os próprios filhos nunca teve problemas. Segundo Cléa, eles cresceram em meio aos akitas e nunca ouviram sequer uma rosnada. "E quando não está a fim de brincar, ele simplesmente se retira", completa Pedro.
Com outros cães, sejam eles da mesma raça ou não, Gervásio não aconselha o convívio. "0 akita é agressivo com outros cachorros, principalmente os de mesmo sexo. Talvez seja uma herança dos tempos de rinha", explica o criador. Em seu canil cada animal possui um recinto próprio, com áreas ao ar livre separadas por grades duplas. Tal agressividade pode, inclusive, dificultar o acasalamento. E, por causa dela, Gervásio não recomenda adestrar o cão para ataque. "Depois que um akita parte para cima de algo, seja humano, animal, seja objeto, é muito complicado fazê-lo parar."
Cléa também é contrária a esse tipo de adestramento. "Quando o akita ataca, ele o faz para defender sua família. No Japão, sua fidelidade é comparada à dos samurais, pois defende por amor. "O treinamento para o ataque distorce isso, transforma o amor em uma reação ensaiada", diz, emocionada.
Em compensação, a raça responde bem ao treinamento de obediência, que usa os comandos de "senta", "junto", "pára", "deita", como confirma o adestrador Jeová de Oliveira.
PROBLEMAS E CUIDADOS
Como qualquer cachorro, o akita seria extremamente feliz se tivesse um bom espaço para correr, mas como raça desenvolvida no Japão, onde os espaços são mínimos, ele se adapta bem em áreas pequenas, até em ambientes internos, como apartamentos. "Por sua natureza tranqüila, não vai ficar esbarrando nem quebrando objetos da casa, mas, por ser uma raça de grande porte, o proprietário tem de ter bom senso em relação ao espaço que vai ser reservado ao cão", aconselha Cléa Hara. Outras vantagens destacadas pelo criador Gervásio é,o cheiro menos intenso que o de outras raças e a pouca saliva.
Em compensação, possui um a pele bastante sensível, costuma sofrer com parasitas e pulgas. "Eles enlouquecem com as Pulgas e acabam fazendo feridas de tanto se coçar", explica Gervásio. "Esse é o principal problema do akita, especialmente no calor", diz o veterinário Mitsuo Sagara, ex-criador de akitas. A pelagem espessa o protege termicamente.
"No calor, essa camada de pêlo acaba vulnerabilizando o cão e a pele fica mais sensível", comenta Sagara.
DOENÇA RARA
Outro problema para a raça é o da Síndrome de Harada-Koyamagi, doença rara que costuma atingir especialmente akitas. "Essa enfermidade ainda é uma incógnita. Não se sabe a origem nem o tratamento e muito menos a prevenção. A cegueira e o glaucoma são algumas das conseqüências", lamenta Sagara. Ele reforça que, no geral, o akita é um cão robusto, rústico e bem resistente a doenças, além de ser facilmente mantido saudável e bonito.
O FILHOTE DE AKITA
Segundo Jeová de Oliveira, o akita é um cachorro reservado desde pequeno. O filhote é bastante sossegado e, quando solto em ambiente desconhecido, se comporta bem. Não é destruidor nem afoito, não cava jardins, não morde móveis nem fica roendo objetos, no máximo dão uma cheiradinha nos móveis ou uma andadinha para reconhecer o local onde estão. "Mas se você chama a atenção, ele pára na hora, bem diferente de outras raças mais agitadas", ressalta o adestrador.
NA HORA DE ESCOLHER, OBSERVE:
As orelhas devem ser proporcionalmente pequenas em relação à cabeça e bem separadas.
Quando ficam em pé(por volta dos 2 meses), as orelhas devem permanecer inclinadas para a frente.
Os olhos devem ser puxados, inclinados na direção da orelha.
O crânio largo e chato.
Da ninhada, dê preferência àquele filhote que se mostrar mais sociável
O rabo deve se manter sempre alto, de preferência ser encorpado e se manter todo enrolado sobre o dorso
O cão não deve apresentar o chamado "jarrete de vaca", ou seja, os calcanhares virados para dentro
A pelagem é composta por duas camadas distintas. Uma com pêlo mais ereto e duro. Outra, com subpêlo denso e suave
PADRÃO OFICIAL
Utilização: guarda e companhia.
Classificação: Grupo 5 - Spitz e cães do tipo primitivo, Seção 5 - Spitz asiáticos e raças afins.
Altura na cernelha (ponto mais alto, atrás do pescoço): 67 cm para os machos, 61 cm para as fêmeas, com tolerância de 3 cm.
Cores: vermelho-fulvo, sésamo (pêlos vermelhos com as pontas pretas), tigrado e branco. Todos os animais, com exceção dos brancos, devem apresentar pelagem esbranquiçada nas laterais do focinho, nas bochechas, sob o queixo, pescoço e ventre, na face inferior da cauda e na face interna dos membros.
AGRADECIMENTOS: Gervásio Lourenço Jr. (White Feet Kennel) - Cléa Hara (Hara's Kennel) - Pedro Lang (Canil Tibiquary) - Regiane Filka (Canil Real), Jeová de Oliveira (Alternativa's Dog Show)
Texto: Adriana Mori e Gerson Sintoni
Fonte:
Artigo publicado na Revista Focinhos, de Janeiro de 2000.
Roberto Bezerra da Silva - Administrador
