Seu lema é o silêncio

Saiba mais sobre a situação da raça Akita no mundo

Entre os mais conhecidos cães usados para a guarda, pode-se afirmar que o Akita é o de atuação mais discreta e silenciosa. Tanto que é comum vizinhos se surpreenderem ao descobrir que “naquela tranquila casa ao lado” há, de fato, um cachorro. O Akita só dá o alarme em caso extremo e, mesmo assim, emite poucos latidos, curtos e roucos. Não faz estardalhaço para agir. Além de quase não latir, se move na calada e fica na espreita, como se analisasse qual é o momento para dar o sinal. Se, enfim, late, o susto é para valer, pois pega o intruso totalmente desprevenido. Caso este já tenha invadido o seu território, é provável que não haja tempo para se defender.

Anita Soares, vice-presidente do Clube Paulista do Akita e criadora pelo Antique’s Place Kennel, de São PauIo, SP, conta que se há movimento perto do portão, o seu Akita faz um verdadeiro ritual: olha para a direção do barulho, levanta devagar, como se não quisesse ser percebido, pára diante do portão, fareja o ar e fica estático em atenção. “Na maioria das vezes, não emite um som. Mas se o fizer é certo: encostaram na casa ou no carro que fica na frente”, completa.

Outra característica, que impõe respeito, é o olhar penetrante e fixo, que parece buscar a “alma das pessoas”. Gervásio Lourenço Júnior, do White Feet Kennel, de São Paulo, SP, recorda de várias situações em que alguém ao ver seu cão comentou sobre o “olhar bravo”. Os olhos puxados, cujo contorno preto parece delineado por um pincel, colaboram para esse olhar impressionante. Soraya de C. Guedes, do Koyuki Kennel, de São Paulo, SP, concorda: “na rua, outros cães tentam, empolgados, chegar perto dos meus, mas basta que os olhares se cruzem para que simplesmente recuem”.

Voltado para o dono, o Akita Capta as suas emoções, o que se reflete na companhia e na guarda. Desconfiado, é raro que fique “chegado” mesmo aos amigos do dono. “Ele os aceita, se estivermos juntos, mas fica atento e não os festeja”, diz Takayoshi Ogata, do Aso Kohgen Kennel, de SaIvador, BA.

No Brasil, o estilo sossegado do Akita conquista cada vez mais admiradores, pois, entre outras qualidades, ele se adapta bem a espaços pequenos e não incomoda a vizinhança. De 1985 até hoje, a raça quadruplicou em quantidade, saindo dos 500 cães para mais de dois mil.Por ser utilizado na guarda, o tamanho aliado à massa física é um ponto importante. Afinal, quanto menos poderoso for o cão, menos intimida.Hoje, no Brasil, 80% dos Akitas são registrados pela CBKC – Confederação Brasileira de Cinofilia e a maioria está menor que o desejado. O padrão do FCI – Federação Cinológica Internacional, seguida pela CBKC, determina uma altura Ideal de 67 cm e tolera 3 cm a mais ou a menos.”Grande parte dos cães está no limite mínimo, com cerco de 64 cm”, observa Anita. “Estamos conscientes e decididos a trabalhar pelo ideal.”

Alexandre Kobayashi, do Canil Hunter’s Place, de Oriente, SP, acrescenta que muitos não chegam sequer ao mínimo Gervásio conta que, como seus cães tem a altura ideal de 67 cm, quando vão a exposições parecem gigantes frente aos demais. “É incrível como poucos centímetros multiplicam o efeito visual de poder físico”, conclui.

Provavelmente, o motivo do domínio dos pequenos no País foram as importações. “Os cães que vieram de fora, nos últimos anos, eram pequenos e influenciaram a criação”, diz Anita. O problema de criar, tendo por base os pequenos, é o risco em diminuir a raça cada vez mais. Mas vale uma ressalva: não se deve pensar, em contrapartida, que quanto maior for o cão, melhor. Haja visto que a altura ideal no padrão não é a máxima permitida. “Os Matagui-Inus, ancestrais do Akita que não eram muito grandes, são a base da tipicidade da raça hoje”, diz Kishiro Maki, presidente do Clube Paulista do Akita e criador pelo Canil Shirakaba, de São Paulo, SP. “Por isso, em tamanhos superiores ao ideal, há mais chances de perder as proporções corretas.”

As informações de outros países demonstram que, quanto ao tamanho, a raça vai muito bem. Monique Bartolozzi, presidente do Clube dos Cães Nórdicos da França, que controla os cães quando completam um ano de idade, confirma que os principais reprodutores tem altura aproximada de 67 cm. No Itália, Alemanha, Suíça, Portugal e no próp rio Japão também predomina essa medida. Anita, que é juíza internacional, afirma: “Iá fora o problema não existe”.

Nos EUA, os cães são maiores e a maioria dos exemplares de destaque mede entre 67 e 69 cm, como conta a criadora americana Linda Wilvaington. Mas, isso é porque há uma série de diferenças entre os Akitas de linhagem americana e os de linhagem japonesa, sendo a altura uma delas. Mesmo maiores, os cães americanos são bem proporcionados, pois carregam a influência de raças como o Pastor Alemão e vários Molossos. Já os japoneses trabaIham para eliminar tal influência. Aqui, a ACB – Associação Cinológica do Brasil, que registra 20 % dos Akitas, se baseia no padrão americano e por isso os exemplares não são pequenos, já que descendem, na sua maioria, da criação dos EUA. Estes cães podem até ajudar a aumentar o tamanho dos outros, mas devese ter cuidado: podem transmitir características só aceitas pelo padrão americano e não pelo da FCI, como por exemplo a máscara negra.

No padrão japonês de 1992, que a FCI segue por ser o país de origem da raça, a máscara negra passou a ser “falta”, o que significa que é uma característica indesejável e que numa exposição, quem a tiver, perde pontos. A razão é que a máscara negra não existia no Akita original e veio de raças usadas a partir de l900 para salvá-lo da extinção. A CBKC deu um prazo de tolerância à essa medida até julho de 1995. Uma circular foi enviada aos juízes informando que os cães com máscara negra não poderiam mais receber a qualificação “excelente”. Consequentemente, não haverá mais campeões com tal característica. A circular acrescenta que até 1998 eles serão aceitos para reprodução. O presidente da CBKC, Sérgio Castro, informa que não foi definido o critério para impedir que estes cães acasalem a partir da data imposta. “Ainda faltam dois anos, mas até Iá teremos um método”, diz. A França, por exemplo, que proíbe acasalar os mascarados desde 1992, analisa o cão adulto e fornece ou não o certificado de apto à reprodução.

Aqui, os criadores já estão evitando reproduzí-los, mas na prática atestam que, de um casal sem máscara, nascem fiIhotes que a tem. É o caso de Vitor Hugo Femandes, do Canil Fushigi-na, de Porto Alegre, RS, que afirma conhecer cães mascarados, vindos de uma linhagem em que só os avós tinham máscara. Soraya também teve uma experiência idêntica. Não se sabe exatamente por quantas gerações a hereditariedade da máscara caminha.

Tendo em vista que no País a maioria dos Akitas é criada nos moldes da FCI, em alguns anos os máscaras negras serão “estranhos no niho”. No entanto, Fabio C. Fioravanzi, autor do livro L’Akita, conta que no mundo eles predominam. Nada surpreendente. Os EUA lideram em quantidade a criação e mesmo em países filiados à FCI eles ainda são uma realidade. O que será deles? Só o tempo dirá. A idéia de transformar o Akita criado nos EUA, onde mascarados são bem-vindos, em outra raça, é comentada por criadores em vários países. Mas tudo ainda é informal. Não há um movimento efetivo. Além do mais, para a FCI reconhecer uma nova raça, muita água tem que passar debaixo da ponte. Há dois anos, a entidade divulgou um documento manifestando a problemática de raças similares serem reconhecidas como diferentes, pois reduz-se bruscamente o número de cães de cada uma e tende-se à consangüinidade.

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Ficha:

Compra do filhote: pelos pais prevê-se o tamanho. Máscaras podem sumir até os 7 meses se fios brancos, a partir dos 40 dias, surgirem entre os fios pretos. Os olhos devem ter as pontas próximas ao nariz mais baixas que as outras.

Cor: branca, tigrada, ruiva, sésamo ou gergelim (ruiva intercalada com fios pretos). Todas exceto a branca, devem ter urajiro (pelagem esbranquiçada ao lado do focinho, bochechas, sob o queixo e pescoço, peito, pontas das patas e da cauda e face interior dos membros). O AKC aceita qualquer cor, até manchas brancas que são falha pela FCI.

Banho: certifique-se depois do banho que o subpelo ficou bem seco para evitar dermatites.

Adestramento de ataque: “não levar em conta o temperamento de cão nórdico pode implicar em desvios de conduta”, Gervásio.

Tamanho: CBKC/FCI – macho, ideal 67 cm e fêmea de 61 cm. Aceitam-se, em ambos, 3 cm a mais ou a menos. AKC/ACB – fêmea: 61 a 66 cm, desqualifica-se menos de 58 cm. Macho: 66 a 71 cm, desqualifica-se menos de 63,5 cm. Dados: exceto os do AKC, são baseados no padrão CBKC nº 255b, de 6/6/94 (tradução do padrão FCI nº 255gb, de 16/7/1992).

Para ler: L’Akita de Fábio C. Fioravanzi, Editora De Vecchi, Milão, Itália.

Agradecemos os entrevistados, inclusive pela revisão técnica deste texto feita também pela cinóloga Hilda Drumond e por José Peduti Neto, juiz all rounder pelo CBKC. Reportagem e texto: Flávia C. Soares.

Fonte:

Reportagem publicada na Revista Cães & Cia nº 201, de Fevereiro de 1996.

Roberto Bezerra da Silva – Administrador

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